OBSERVAÇÃO: LAPA

Entre um dos principais instrumentais técnico-operativos que o Assistente Social utiliza em sua prática, está a observação. Para compreendê-lo melhor foi sugerido um Roteiro pela Docente Rosemeire Maia, que consistiu em levar a campo, a turma do segundo período do ano letivo, com a finalidade de observar o espaço e as relações conflituosas dos sujeitos com este.

O autor, antropólogo, Gilberto Velho, em seu texto “Observando o Familiar” levanta questões importantes no que diz respeito à “observação”. Lembra que a observação é uma herança das ciências sociais e pautado no positivismo afirma que o observador deve ter distanciamento máximo do observado para garantir relativa “neutralidade”.

Após uma breve apreensão metodológica escolhemos o Local a ser observado: A Lapa – área localizada no centro do Rio de Janeiro. Famosa por seus grandes arcos brancos, que vão de um ponto a outro sustentando o Bonde de Santa Tereza, é uma localidade com intensa procura turística. Historicamente é considerada uma área boêmia da cidade. É possível ler e ouvir boas histórias de autênticos malandros cariocas que viviam por suas ruas, de bar em bar, à procura do melhor samba de gafieira.

Há alguns anos, porém, a área onde se localiza a estrutura formada de grandes abóbadas tem atraído olhares de empresários e do próprio poder público. Isso significa mais investimentos em infra-estrutura. Esse movimento pode ser chamado de “Revitalização da Lapa”, como podemos constatar em grandes placas do Governo do Estado do Rio de Janeiro. A estrutura dos bares nas ruas principais (Mende Sá e Riachuelo) a cada dia que passa ganha mais sofisticação, os donos dos bares apostaram e estão transformando seus negócios para acolher um público cada vez mais elitizado. É notável essa intenção.

Não poderia afirmar quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha, mas podemos afirmar que ao passo que os donos dos grandes estabelecimentos comerciais sofisticam seus bares o governo do Estado passa a investir em infra-estrutura (estrada, iluminação) e organização (policiamento, sinalização). O investimento público trouxe o “choque de ordem” do governo Paes para as redondezas da Lapa.

Em meio esse desenvolvimentos local, hoje percebemos que economia local e as grandes atividades se foram em torno de bares, restaurantes, danceterias, hotéis, motéis e estacionamentos. Embora seja um bairro boêmio é importante salientar que é um bairro residencial e que ao pé de tanta boemia e lazer moram milhares cariocas e não cariocas, que estão pouco a pouco sempre obrigados a compartilhar seu espaço de moradia com um grande centro de lazer a céu aberto.

Às vésperas de grandes eventos esportivos mundiais, a população local vê o bairro mudando de forma, ganhando espaço e todos querem lucrar com isso, é o caso dos proprietários dos imóveis. Grandes construções irregulares são desfeitas e a população que na ilegalidade ocupa construções são despejadas. Uma grande bolha imobiliária infla cada dia mais rápido. O bairro que antes acolhia moradores de classe menos abastadas agora os impossibilitam de continuar por ali, já que o custeio de suas vidas se torna mais elevado (quase impossível).

Onde querem chegar?

Embora seja constatado e declarado que a área sofre e sofrerá mudanças de desenvolvimento urbano, ainda é possível perceber atores mais marginalizados. São sujeitos que lutam para continuar no cenário que cada dia que passa se apresenta menos apropriado. É um momento de sinestesia – espaço onde características de um antigo bairro e um emergente bairro vivem juntas, oras opostas, oras complementares.

Em determinados pontos do bairro é possível observar prostituição. São mulheres e homens que tiveram ou não seu corpo transformado e que praticam o sexo por meio de pagamentos. Ficam nas extremidades do bairro, normalmente em lugares menos iluminados.  Por todos os lados, é possível observar população de rua, sozinhos ou em grupos. Uns buscam por esmola para comer. Outros passam o tempo conversando em companhia de bebidas alcoólicas e outras drogas. Grupos de crianças e jovens adolescentes estão por todos os lados. Eles se divertem ao atravessar a rua em meio ao trânsito, brincam com os turistas e com quem passa por eles, bebem, fumam e frequentemente estão envolvidos em furtos.

As barracas que antes caminhavam em desordem e ilegais agora são cadastradas e fazem parte de um modelo logístico organizacional que pressupõe relativa padronização e segurança aos consumidores. Poucos são os ambulantes que circulam livremente pela área.

Danceterias estão espalhadas por todos os lados com os mais diversos eventos, que por sua vez, recebem os mais diversos públicos. Movimentos Raciais, Sexuais, Culturais fazem parte de uma grande miscelânea de costumes e comportamentos.

O policiamento foi intensificado, existe uma cabine do “Choque de Ordem” me no centro das ruas movimentadas. Vendem todo tipo de bebida e lanches. É possível ver por todos os lados guardas municipais, de transito e patrulhamento policial na localidade. Estes atores ajudam a manter o equilíbrio e a ordem.

Embora nós sejamos freqüentadores assíduos ou não, observar a área de uma maneira mais descritiva e crítica não é algo fácil. Distinguir o exótico do que nos é familiar é um exercício que deve ser treinado em minúcia. Entretanto, essa atividade pôde levantar vários elementos de discussão e análise que podem levar algum dia algum aprofundamento.

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